terça-feira, 1 de dezembro de 2009

22º Corte ( - ou Continuação de Rosanah - )

Uma brisa soprou no rosto de Rosanah. Iúre fez uma careta ao sentir o cheiro de carne queimada no ar e disse:
- Ei, peituda. Depois vocês se apresentam. Por enquanto vamos para casa enquanto ninguém ainda nos viu. Lá vocês podem fofocar à vontade.
Áhlima era temperamental, principalmente quando se tratava de pôr seus seios grandes na conversa. Odiava quando os rapazes a viam como se fosse uma coisa que pudessem tratar como desejassem. Como uma coisa inanimada, com valor de mercado. Já tinha pensado em fazer uma cirurgia para diminuí-los, mas era caro demais para uma garota pobre que viera com praticamente nada do interior. Havia tantos problemas nas ruas e as pessoas ainda conseguiam se importar com o tamanho dos seus seios. Aquele era um forte indício que o mundo realmente havia começado a sucumbir em sua fumaça tóxica. Realmente havia começado a acabar.
- Seu idiota! Se me chamar disso de novo eu viro seus pulmões do avesso! Vou socar tanto sua cara que vão confundir com sua bunda!
- Olhem! Eu salvei essa vadia e o que ela me dá em troca? Um monte de insultos! Eu devia ter deixado aquele infeliz enfiar uma bala entre seus olhos. Não estaria tendo que ouvir essa vaca falando agora...
O sangue de Áhlima permeou sob a pele da face. Ficou enraivecida. O segurou pela garganta e o fez sufocar. Iúre puxou o cão do revólver e apontou na direção dos intestinos da moça.
- Esh-ffá ma-ffu-ca? Ffer Moffer??
- Fala direito seu imbecil.
Rosanah olhou para os dois como se eles fossem insignificantes. Balançou a cabeça e disse:
- Parem. Olhem para lá.
Não mencionou nada mais. Foi imediato. Áhlima largou a garganta de Iúre. Ele abaixou a arma. Ás vezes Iúre ficava com medo da eloqüência da voz de Rosanah. Nunca vira ninguém desobedecer a sua ordem. Não tinha a ver com sua bela aparência, nem com o timbre doce com que articulava as palavras. Tinha a ver com seus olhos. O seu brilho. Dava uma confusa vontade de fugir, ao mesmo tempo em que queria olhar mais, chegar mais perto, se diluir neles.
Rosanah apontou a saída do refeitório. Estava para Lúcio, que arrastava Jonas pela gola da camisa.
- Quem são?
- Acho que o nome é Jonas. O outro não conheço. Nunca vi na escola, ou nunca percebi. Deve ser um daqueles fracassado ou é da turma para garotos especiais. Nome bonito para retardados, não é? Sala 1202. Depois vocês passam lá para fazer caridade. Agora vamos embora. Estou tendo um mau pressentimento sobre ficarmos aqui.
- Sim. Vamos embora. Estou tendo um péssimo pressentimento também.
Rosanah pôs as mãos na cadeira de rodas com naturalidade e seguiu pela trilha de árvores mortas.
{Longe e ali, em outro lugar e todos que pudessem existir, eu digo: ela era linda}.

6 comentários:

Julliana disse...

contos do JK ? aheuauehau

Gostei MUITO da resposta da garota "peituda"
=D
hahhaahahhaa

D. X. Bettecher disse...

Cortes cada vez mais cirúrgicos na alma da narrativa virtual...
Espero um dia ver esse sangue tingir as páginas de um livro.
Que a obra (e a matança!) continue.

Bruno,Idiota Master disse...

Que DILIÇA , a parada é tão envolvente , que nem com a dificuldade de concentrar em tudo que eu estou ultimamente , consegui me desprender , deve ser essa a sensação das nossas mães sobre as novelas , enfim , tá mais que profissional , tá excepcional , fabuloso , essa linha urbana acho que me encanta 10 vezes mais do que AQUELAS COISAS DE VIADOS NORUEGUESES , EUROPEUS E OUTRAS BICHISSES , MEDIEVAL ORIENTAL COM PIRU PEQUENO e essas paradas que eu não aguento nem mais uma linha , parabéns amigão!

Peri disse...

Sou alguém muito feliz pela positiva aceitação da história de "quando o mundo começou a acabar". Espero envolver ainda mais os queridos leitores com essa essa história experimental (e quem sabe até perturbar permanentemente a sanidade de alguns...).

Anônimo disse...

cara, finalmente eu li o tão falado carne humana e fiquei presa naquele lugar. é viciante, tem qualidade, e o mais legal, é real. por algum motivo pareço conhecer os personagens rs. é a vantagem dos mais novos sobre os mais velhos, podemos le-los e supera-los e é isso que esta fazendo de maneira peculiar. acho que não preciso dizer parabéns né?! quero dizer: faça mais!

pam

Edgard disse...

A descrição é tão sublime que quase me apaixono por essa Rosanah.
Mas minha preferida continua sendo a Áhlima.Hehehe!