Os olhos dela, por alguns instantes, pareceram com os da minha mãe. É claro que é uma afirmação tola, porque eu nem mesmo chegara a conhecer mamãe, mas de alguma forma aqueles olhos profundamente negros escondiam uma discreta essência de maternidade. Ou talvez fosse só impressão minha devido à fragilidade condicional do meu próprio cérebro... Não importava.
Eu sei apenas que me senti confuso ao vê-la sentada displicentemente naquela cadeira velha de escola. Para minha surpresa, ela também olhava para mim, numa reciprocidade afável para o meu ego. Em nenhum instante pensei que a causa de Áhlima me encarar intermitentemente era a enorme cicatriz do lado esquerdo de meu rosto (prova de minha notória atração por brigas violentas).
XXX
Entrei na sala e cumprimentei a professora de literatura. “Bom dia, senhora.” A estranha mulher nem ao menos levantou a cabeça de sua leitura para me cumprimentar. Meus instintos diziam que de alguma forma ela sentia medo de mim.
Instalei-me então no fundo daquela sala abafada, repleta de indivíduos detestáveis (e alguns provavelmente armados...).
Nunca conseguiria sentar ao lado de Áhlima em primeiro instante. Puxar uma conversa. Sempre fui deveras inibido para qualquer atitude em relação ao sexo oposto. Também nunca soube o porquê, nunca me questionei ou refleti sobre o assunto. Agora ela estava lá, bem lá na frente. No início vazio da sala. Envolta de poeira cancerígena de giz e comportando a própria languidez em seus seios.
“Mas que garota linda é essa”, pensei.