O ar contaminado do hospital foi o segundo contato eu que tinha com o mundo, além daquelas mãos cobertas por luvas de borracha puxando minha cabeça.
Eu respirei. E o oxigênio temperado com essência hemocorial invadiu meus pulmões.
Chorei. Meu corpo tingido de sangue materno deslizava para fora como suco de morango fresco.
O médico não me encarou. Não por repulsa. Eu apenas não era especial, só mais um embrião que se desenvolvera demais e conseguira nascer naquela tarde de abril.
Eu nasci em algum hospital do subúrbio.
Logo depois de minha mãe me conceber, deixou meu corpo entregue para adoção. Ela sim sentiu nojo de mim.
Repudiou-me ao ver o que um estupro lhe trazia em suas mãos. Eu era a perfeita memória dos socos e chutes que levara quando fora violada pelo seu pai.
Mas eu não sei de nada disso, amado leitor.
Ninguém sabe disso. Minha mãe foi morta logo depois que meu pai/avô soube que nasci. Ele espancara-a até transformar sua cabeça em um denso purê de sangue. E não demorou muito para que meu amado pai se matasse.
Por quê?
Eu explico a vocês: dementia praecox, ou, simplismente, esquizofrenia. Sempre foi bem típico na minha família, como vocês irão saber.
Jonas Teixeira ( estudante de colégio público e possível doente mental)
Continua...
